Como prometido no post anterior, no post de hoje abordaremos o livro mais polêmico e mais lido em toda a história da humanidade.
Sendo o primeiro livro reproduzido mecanicamente, através da imprensa de Johanes Gutenberg (estudaremos em uma outra oportunidade quais foram as causas e consequências deste acontecimento), traduzida para aproximadamente 2500 línguas e dialetos, a Bíblia Sagrada é o livro mais vendido do mundo, com mais de 6 bilhões de exemplares. No "Top 20" de livros mais vendidos de todos os tempos, a Bíblia supera sozinha o número de vendas de todos os outros 19 livros juntos.
Estes números me trouxeram a obrigação de dar início a esta série onde investigaremos minuciosamente a validade da Bíblia, e descobriremos a sua real importância histórica e religiosa em nossa época.
A série consiste de 6 posts que caberão a responder cada uma destas perguntas.
1. Como foi escrita?3. Podemos confiar nela?4. Como ela chegou até nós?5. Por que acreditar?6. Como ela deve ser lida?
Seguindo a ordem, este texto tratará da primeira pergunta.
Como a Bíblia foi escrita?
A palavra Bíblia deriva do grego, significando "conjunto de livros" (plural de biblion).
Tratando-se de vários livros, foi produzida por diversos autores, aproximadamente quarenta, sendo amplamente aceito que a Bíblia foi escrita entre 1445 a.C à 90 d.C (com um hiato de não produtividade entre 450 a.C à 45 d.C).
Escrita em três línguas: hebraico, grego e aramaico, é imprescindível levar em conta que estas línguas hoje se distanciam muitíssimo de como era à época em que foram feito seus registros.
Nos deparamos aqui com a primeira dificuldade: Imagine um livro escrito em um período de mais de 1500 anos, por cerca de quarenta autores diferentes, em regiões, línguas, culturas e estilos de vida diferentes e todos tratando do mesmo assunto, mas não um assunto qualquer, um assunto que transcende o físico, beirando o incompreensível para nossa mente limitada e sem qualquer tipo de asseguramento empírico.
Nesta série buscaremos respostas para diminuir todas as barreiras que essas condições nos colocam quanto à confiança e interpretação do texto bíblico.
Vamos a primeira verdade sobre o processo da formação da Bíblia.
A BÍBLIA FOI ESCRITA POR HOMENS
E com isso já posso me enxergar sofrendo um apedrejamento virtual pelos crentes chatos de plantão.
Ao contrário da imaginação popular, a Bíblia não foi escrita pelo dedo de Deus - com exceção do decálogo (os dez mandamentos) - nem caiu do céu nos braços dos profetas de Israel.
A Bíblia foi escrita por mãos humanas, mentes humanas, utilizando-se da linguagem humana, o que traz enormes complicações. Precisamos levar em conta alguns fatores para alcançar entendimento nela:
Individualidade do autor
Sim, muito da Bíblia foi escrito de um modo bem humano, olhe o início do evangelho de Lucas:
"Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós,conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo (...)" Lucas 1:1-3 (Nova Versão Internacional)
Para escrever seu evangelho, Lucas saiu em pesquisa. Lucas não era um dos doze apóstolos, o que fortalece ainda mais a necessidade do trabalho minucioso ao investigar com os apóstolos e as testemunhas que presenciaram boa parte do que ele relata.
E essa é a parte interessante da Bíblia, quando Mateus, Lucas e Marcos descrevem os mesmos fatos de forma diferentes, fica evidente que a inspiração divina para a produção do texto recai igualmente sobre os três, mas cada um escreveu conforme o seu jeito de se expressar, conforme o que viu, o que ficou marcado em sua mente. Sim, um processo humano guiado por Deus.
Ora, Lucas era um médico, um homem de ciência, se utilizou de toda a precisão empírica de seu tempo para alcançar este relato, que provavelmente tenha sido produzido para o julgamento de Paulo, um texto que precisava de respaldo para ser utilizado no meio jurídico.
Já Marcos, demonstra ser uma pessoa de ação, seu livro mal começa e já acontecem inúmeros milagres.
Mateus por sua vez narra a história daquele que transformou a sua vida, coloca Jesus como o centro de sua salvação.
E João, o discípulo amado, não esconde nem por um segundo quanto de seu sentimento e intimidade com Jesus compõe a forma como ele escreve seu evangelho, um evangelho intimista.
Fico pensando em como seria o meu evangelho, provavelmente seria uma Bíblia a parte com uma riqueza de pequenos detalhes irritante que faria qualquer um cair em tédio. Os autores revelavam muito do que eles eram e como pensavam ao escrever.
Mas o mais interessante é como todos, sem exceção, sendo tão diferentes conseguem manter uma linha tão firme e coerente do Gênesis ao Apocalipse demonstrando claramente o zelo de Deus para com o seu texto.
A Bíblia foi escrita com as técnicas e suportes do seu tempo
Escrever não era uma tarefa fácil, muito menos barata.
No texto bíblico há relatos de diversos suportes utilizados a época pelos profetas. Suportes são os materiais utilizados para o registro escrito. Em nossa era o exemplo mais comum é o papel (já sendo em sua maior parte do tempo substituído pela tela digital).
São encontrados no texto bíblico menções a estes suportes: tablete de argila, pedra, metal, cera, madeira, óstracos, papiro, pergaminho, linho e palimpsesto.
Dentre estes, os mais utilizados foram o papiro e o pergaminho.
Escrever era algo realmente complexo, tarefa de pessoas seletas, pensado mais no registro e sua importância futura do que no real impacto massivo imediato. Aliás um impacto massivo era algo inimaginável por qualquer outra via que não fosse pela oralidade.
A escrita era diretamente influenciada e limitada pelo suporte utilizado, um exemplo disso é a escrita hebraica, onde se lê da direita para a esquerda, assim como todas as línguas antigas com exceção do grego, o que remete ao fato da maior facilidade e posição mais natural em esculpir as letras utilizando o martelo com a mão direita (em geral, mais forte) e o cinzel com a esquerda.
Os suportes eram limitados, o que nos faz muitas vezes ler histórias sem muitos detalhes devido as dificuldades em registrá-los, muitos destes detalhes seriam facilmente compreendidos por alguém familiarizado pelo estilo de vida em questão, bem como as peculiaridades culturais, mas isso também tem seu lado bom. A necessidade da síntese torna a Bíblia um livro legível do ponto de vista quantitativo.
Se escrita hoje, com todas as facilidades de registro, a Bíblia teria um tamanho inimaginável! Imagine um ano de todos os jornais da sua cidade, agora multiplique isso por cerca de 1500 anos, some a isso fotos, vídeos e gravações de áudio, sem falar nos inúmeros registros amadores que se pode fazer com qualquer celular atual.
A Bíblia, a priori, foi escrita para seu tempo
Essa é talvez a parte mais difícil de se aceitar pelos leigos. Muitos não compreendem o quanto esse livro sofreu até chegar em nossas mãos, na nossa língua, e isso de uma forma que seja entendida.
Vamos dar um pequeno passo ao passado, esta placa logo abaixo foi fixada há pouco mais de cem anos.
Ora, é claramente legível, mas observe que apesar das poucas palavras, já sofreria algumas atualizações para estar dentro das normas de nossa língua hoje.
Agora vamos a um passo maior, quinhentos anos atrás, o primeiro registro de literatura brasileira.
Sim, isso é português, e mesmo que entendêssemos a letra de Pero Vaz de Caminha em sua primeira carta sobre o Brasil, teríamos uma certa dificuldade com a língua, que se misturava um tanto com o espanhol, tinha grafias completamente diferentes. E estamos falando de 1500.
A imagem abaixo é um fragmento do Codex Aleppo (uma das mais confiáveis cópias parciais do texto bíblico), sua datação marca 930 d.C.
O Codex Aleppo faz parte dos escritos massoréticos e é impossível falar da construção da Bíblia como ela chegou a nós sem nos determos por um tempo neste assunto. Trabalharei estes escritos no post que responderá a terceira pergunta desta série.
Já está bem claro as dificuldades que temos hoje em tão somente ler um texto escrito há mais de dois mil anos atrás. Compreendê-lo pode ser uma missão igualmente difícil.
Muito do texto bíblico perde seu sentido na nossa interpretação quando não entendemos o mínimo da cultura e realidade daquele povo. Um pequeno exemplo disso, se você concordou quando disse que Lucas sendo médico se utilizou de empirismo para provar a veracidade dos fatos que pesquisou, você já caiu num erro de interpretá-lo como um médico nos dias de hoje. Falei de empirismo diante da seriedade em que não sendo ele um trabalhado braçal, pescador, marceneiro, mas um estudioso da ciência humana, tinha um compromisso com os fatos, e de fato é o único autor que começa um livro dizendo que investigou pessoalmente os relatos com testemunhas oculares. De fato ele era um homem de ciência da época, mas a medicina antiga do oriente médio passava longe de ser uma ciência exata (não dentro dos moldes de exatidão atuais), mais parecendo um conjunto de superstições.
Deve-se ressaltar os grandes impasses idiomáticos, ou seja, frases que tinham sentido para as pessoas na época, mas que não resulta em nenhum sentido próximo devido a nossa diferença cultural (seja quanto a localização geográfica ou o distanciamento cronológico).
Levar o texto bíblico ao pé da letra pode ser uma verdadeira catástrofe quanto a interpretação.
A própria expressão "ao pé da letra", em uma outra cultura não faria o menor sentido e seu sentido foge às palavras.
Com isso, temos que lembrar que a Bíblia foi escrita pela cultura da época, linguagem da época, se utilizando de exemplos e da realidade da época, mas que nunca se restringiu ao seu tempo, o que é evidente quanto ao impacto que ela tem hoje, é um livro atual, sem dúvida. Seu conteúdo é mais que aplicável aos nossos dias, mas sua escrita não.
Essa é uma dificuldade que deve ser superada individualmente por cada pessoa que se interesse pelo texto bíblico, indo atrás dos significados das expressões idiomáticas, buscando entender melhor a cultura e realidade do povo a quem o texto era direcionado na época. Esse conhecimento pode ser buscado em dicionários bíblicos, materiais acadêmicos teológicos e incessante pesquisa.
Hoje, 3500 anos depois de suas primeiras palavras serem escritas, é o livro mais presente no mundo.
Sua má interpretação aliada a proibição de estudá-la causou inúmeras mortes, guerras, opressão e todo tipo de destruição. O conhecimento desta poderia ter salvo todo uma era.
Hoje qualquer pessoa pode tê-la em sua casa, a ler com responsabilidade é imprescindível para que a sociedade não recaia em plena ignorância religiosa, estando a mercês de charlatões, manipuladores e construtores de opiniões falsas.
Infelizmente o que vejo hoje é uma segunda idade média, novamente ninguém questiona ou não se embasa para questionar. Aceitamos ou negamos qualquer coisa nos dita sem averiguar.
Antes não se tinha acesso ao conhecimento para questionar o que era ensinado.
Hoje, o fácil acesso exagerado foi ofuscado pelo comodismo e mitos religiosos, aliados ao achismo e desconhecimento total a respeito do assunto e tudo que o permeia em suas entranhas. Continuamos imersos na ignorância.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." João 8:32

.jpg)

.jpg)