Como foram selecionados os escritos bíblicos?
Essa é uma questão que passa pela cabeça de qualquer pessoa que se deparou por algum tempo com a Bíblia. Como foi feita a seleção dos livros que estão nela?
Como já pincelado no post anterior (Como a Bíblia foi escrita?), os autores bíblicos estavam quase sempre escrevendo por necessidade de registro histórico ou de comunicação a um público específico sobre os acontecimentos que estavam vivenciando. Sabiam que contavam a maior história de todos os tempos, mas não estavam formalmente e muito provavelmente não tinha muita noção de que estavam "escrevendo a Bíblia".
A Bíblia é fruto da seleção de vários destes escritos, onde muitos outros foram deixados de lado, por razões que iremos trabalhar aqui.
Neste post abordaremos o que levou alguns serem escolhidos e outros descartados.
É importante ressaltar que o cânone (lista de livros considerados inspirados por Deus), não era uma instituição rígida e inegável. O cânone sofreu constante pesquisa e averiguação quanto ao julgamento de considerar tais livros sagrados. Quanto mais conhecimento se alcançava à cerca daqueles escritos, mais discussões se iniciavam sobre a validade ou não do texto.
Não vamos entrar em muitos detalhes quanto aos escritos do velho testamento para economizarmos tempo. O aval do velho testamento está no simples fato dele ter sido a "Bíblia" que Jesus lia, era onde Ele embasava seus sermões e onde retirava toda a argumentação para as discussões teológicas de seu tempo. Nos deteremos na Bíblia cristã e em sua formação após a vinda de Cristo.
A primeira pergunta a se responder é: Como se elaborava o cânone?
O cânone bíblico se desenvolveu através de encontros entre os principais líderes do cristianismo (que ainda galgava seus primeiros passos). Nessas reuniões eles discutiam diversas questões teológicas, doutrinas, diferentes pontos de vista e quais escrituras (ainda recentes) teriam sido inspiradas ou não por Deus. Por fim, discutiam ainda se estas deveriam ser adicionadas às suas escrituras sagradas.
O principal dos mais antigos registros do que se compõe a Bíblia cristã é o Cânone de Muratori. Datado por volta do ano 170 d.C, já incluía em si uma discussão sobre quais livros eram confiáveis para compor a Bíblia. A discussão se concentrava principalmente em determinar o que seria acrescentado, ou seja, o estabelecimento do Novo Testamento, mantendo toda a literatura sagrada judaica, ou seja, a Tanakh que hoje chamamos de Velho Testamento.
Um pequeno parênteses dentro do assunto para esclarecer este termo hebraico:
Tanakh: Conjunto composto pela Torah, Neviim e Ketuvim somando assim o mais próximo de ser chamado uma Bíblia Judaica. A palavra Tanakh deriva do acrônimo das iniciais destas três partes.
Torah: Conhecido como 'A Lei', 'Instruções' ou também 'Pentateuco'. Constituída pelos 5 livros de Moisés (os cinco primeiros livros em nossas Bíblias).
Neviim: Conjunto de livros conhecido como "os Profetas"Ketuvim: Conjunto de livros conhecido como "as Escrituras".Trazendo para nossa realidade, vemos Jesus citando essa divisão neste texto:"Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas" (Mateus 22:40)Ou seja, toda a Torah e o Neviim.
De volta ao Cânone de Muratori, já em 170 d.C - muito antes da instituição do cristianismo como religião romana por Constantino no Concílio de Nicéia em 325 d.C - já trazia a Bíblia bem próxima do que temos hoje. Existem dúvidas levantadas por alguns livros constados que não foram precisamente descritos no cânone, mas especialistas concordam que são em sua maioria livros que pertencem ao Novo Testamento atual.
Mas qual a importância do Cânone de Muratori em comparação aos concílios futuros?
Sua importância se dá por este estar livre da influência política de Constantino, sendo fruto do zelo das primeiras gerações de cristãos, uma geração muito próxima destes escritos.
Mas como estes selecionaram o que entraria no Cânone?
É evidente que muito mais que o Novo Testamento foi escrito pelos cristãos da época, mas uma seleção era necessária para saber que escritos confiar para a fundamentação da fé cristã.
Certas exigências eram necessárias para a difundir um texto como sagrado. São elas:
1. O autor: Deveria ser apóstolo de Jesus ou ter proximidade inquestionável com um deles.2. Unanimidade: O livro deveria ser aceito em sua totalidade por todos os cristãos que trabalhavam na propagação do evangelho, não podendo haver divergência entre grupos de fiéis quanto ao material.3. Coerência: O texto deveria ser coerente entre si e com todo o restante do texto bíblico.4. Conteúdo: Que acréscimo à vida cristã aquele livro trazia?IMPORTANTE: O livro deveria preencher todos os quesitos concomitantemente. Qualquer falha em um só ponto o excluiria da discussão.
Todos estes pontos eram avaliados bem como a veracidade do material, se havia certeza na autoria comprovada, se era coerente com sua forma de escrever e o discurso apresentado.
Após cuidadosa análise, se todos os principais líderes concordassem, o livro seria incluído.
Existem mais textos dos apóstolos que não estão na Bíblia?
Sim! Isso é bem claro nesse fragmento da primeira carta aos coríntios, escrita por Paulo.
"Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais." (1 Coríntios 5:9 - NVI)
Este texto evidencia que a primeira carta aos coríntios é no mínimo a segunda delas.
Este é o único registro desta carta anterior a primeira, o que nos leva a crer que: ou a carta se perdeu antes da formação do cânone, ou não acharam o conteúdo interessante o bastante para compor os livros.
Sim! Muitos textos evidentemente sagrados podem ter ficado de fora. Sendo originário de Paulo, sem dúvida que seria um texto muito interessante, mas deve-se pontuar algumas coisas antes de seguir:
Que tamanho a Bíblia alcançaria se incluíssemos tudo que todos os apóstolos escreveram?
João encerra seu evangelho respondendo esta pergunta:
"Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem." João 21:25
João encerra seu evangelho respondendo esta pergunta:
"Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem." João 21:25
Devemos ainda lembrar das dificuldades e custos em se copiar um texto, já citadas no post anterior.
Essa é uma característica bem marcante do Novo Testamento, é muito conciso! É fascinante como não há nada nele que parece sobrar. Tudo ali é especialmente imprescindível para o leitor cristão.
Há outros casos onde não se puderam comprovar a autoria de quem os escreveu, outros em que o escrito físico (pergaminho) que eles tinham acesso, não era confiável.
Numa missão tão delicada como essa, todos os cuidados possíveis eram tomados e a regra era: na dúvida, não entrava no cânone.
E por que a Bíblia da minha vó tem uns livros que a minha Bíblia não tem?
Sim, algumas bíblia vêm com livros adicionais conhecidos como deuterocanônicos ou apócrifos.
Antes de seguir vamos traduzir estes termos:
Apócrifo: Do latim: apócryphus. Significado: oculto
Deuterocanônico: Em uma tradução literal, "de um segundo cânone".
Presentes no Velho Testamento das Bíblias católicas, seriam os últimos livros escritos antes do Novo Testamento, porém estes livros sempre ressaltaram dúvidas quanto a sua sacralidade.
Apesar da comunidade judaica ter respeito por essas obras, nunca os incorporaram aos seus escritos sagrados, excluindo-os da Tanakh.
Estes livros sempre foram um assunto em pauta nos concílios já citados aqui. É importante lembrar que todos os principais historiadores da época não deram validade a estas escrituras em seu tempo. Apesar de ter coisas muito interessantes, seu conteúdo não condiz com o todo da Bíblia.
Há choques de doutrinas, imprecisões históricas, não sendo livros que acompanham a confiabilidade do restante da Bíblia. Além disso as dúvidas sobre suas autorias sempre pesaram contra estes, ao ponto de mesmo dentro da instituição Católica haver discussões sobre a validade destes.
Eles foram canonizados pouco a pouco em concílios tardios, tendo sido incorporados por completo à Bíblia Católica somente no Concílio de Trento em 1546, período bastante complicado para a fé.
Os protestantes não aceitaram essa canonização pelos mesmos motivos que os judeus não a aceitaram em seu tempo (antes de Cristo).
Quanto aos apócrifos pós Cristo, a problemática é a mesma: autoria questionável, trajetória dos escritos físicos não confiável, conteúdo duvidoso teologicamente.
Lembrando mais uma vez: Mesmo na instituição católica, existiam e ainda existem muitos que discordam da sacralidade destes textos.
Tá, mas e o evangelho de Maria Madalena? E o de Judas Iscariotes?
Ah, os polêmicos evangelhos secretos recém descobertos!
Seria injusto encerrar este post sem algumas considerações sobre eles.
O evangelho de Judas Iscariotes revelado recentemente pela National Geographic como "a descoberta que mudaria tudo que se conhece sobre religião"... na verdade foi descoberto em 1970.
Já na época despertou diversas dúvidas e hoje tem sua autoria atribuída aos Cainitas por toda parte de especialistas.
Para ser mais claro, com exceção da National Geographic, ninguém que tenha uma quantidade razoável de conhecimento no assunto pareceu dar muito crédito a este livro.
E aproveito pra deixar o aviso: Televisão e livros ficcionais não têm nenhuma autoridade acadêmica, não há o menor compromisso com a verdade. O interesse se resume em lucro e nada melhor que uma polêmica para alcançar seus interesses financeiros.
Já o evangelho de Maria Madalena que os canais de documentários também vivem redescobrindo com uma certa frequência, teve sua última transação registrada em 1896, quando passou a ser mais conhecido com o esforço do comprador destes manuscritos para torná-los mais populares.
Não há evidências ou aspectos que o mesmo tenha sido escrito no período em que Jesus vivia, o que me obriga a esclarecer um pouco sobre estes textos gnósticos.
Os Cainitas
O termo deriva de Caim, sendo uma seita gnóstica do século II que se detinha em contar a história bíblica pelo ponto de vista dos antagonistas, daí sua origem no nome de Caim.
Os textos são muito interessantes, todo o problema reside em ser tomado como documento histórico.
Estes escritos são unicamente um exercício de criatividade por um grupo de pessoas excêntricas posteriores aos tempos de Cristo.
O único registro histórico que há neles é o da criatividade ficcional do tempo dos autores, e não de um relato em si.
Mas eu vi no Discovery que...
Mais uma vez: Discovery Channel, History Channel, National Geographic e etc, empatam em seriedade com a nossa TV aberta, seus documentários a cerca de polêmicas são tão verdadeiros quanto o teste de fidelidade do João Kleber. Não há compromisso com a verdade em seu conteúdo veiculado.
Isso tem que ficar claro ou não faremos avanços em nossos estudos, o único interesse nestes documentários é que seja lucrativo, não importando a forma de atrair o público.
Obviamente que é interessante, claro! Mas não é material digno para basear suas crenças, o mesmo se aplica a Dan Brown, Michael Moore e todos estes caçadores de polêmicas que vendem mais livros que Big Mac's.
Lembrem-se, boa ciência exige pesquisa da parte do leitor e você não a encontrará em bancas de revistas!
Mas... Eles não mentiriam assim...
Acontece que mesmo com toda a facilidade de acesso à informação (basta 5 minutos de pesquisa para confirmar tudo o que está escrito aqui), a grande mídia sabe que é mais fácil assistir o próximo programa ou mesmo trocar de canal.
O problema é que a verdade não chama muita atenção.
Infelizmente a culpa desta situação vergonhosa em que a mídia se encontra é toda nossa. Não averiguamos as informações e é muito mais fácil engolir tudo que é dito.
A morte do questionamento nos colocou nessa situação.
E assim vão se criando diversos mitos modernos. Por falar em mitos, trataremos muitos destes (os melhores!) no próximo post!
A Bíblia: Podemos confiar nela?


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