A Bíblia: 2. Como foram selecionados seus escritos?

Como foram selecionados os escritos bíblicos?

Essa é uma questão que passa pela cabeça de qualquer pessoa que se deparou por algum tempo com a Bíblia. Como foi feita a seleção dos livros que estão nela?


Como já pincelado no post anterior (Como a Bíblia foi escrita?), os autores bíblicos estavam quase sempre escrevendo por necessidade de registro histórico ou de comunicação a um público específico sobre os acontecimentos que estavam vivenciando. Sabiam que contavam a maior história de todos os tempos, mas não estavam formalmente e muito provavelmente não tinha muita noção de que estavam "escrevendo a Bíblia".
A Bíblia é fruto da seleção de vários destes escritos, onde muitos outros foram deixados de lado, por razões que iremos trabalhar aqui.
Neste post abordaremos o que levou alguns serem escolhidos e outros descartados.

É importante ressaltar que o cânone (lista de livros considerados inspirados por Deus), não era uma instituição rígida e inegável. O cânone sofreu constante pesquisa e averiguação quanto ao julgamento de considerar tais livros sagrados. Quanto mais conhecimento se alcançava à cerca daqueles escritos, mais discussões se iniciavam sobre a validade ou não do texto.

Não vamos entrar em muitos detalhes quanto aos escritos do velho testamento para economizarmos tempo. O aval do velho testamento está no simples fato dele ter sido a "Bíblia" que Jesus lia, era onde Ele embasava seus sermões e onde retirava toda a argumentação para as discussões teológicas de seu tempo. Nos deteremos na Bíblia cristã e em sua formação após a vinda de Cristo.

A primeira pergunta a se responder é: Como se elaborava o cânone?

O cânone bíblico se desenvolveu através de encontros entre os principais líderes do cristianismo (que ainda galgava seus primeiros passos). Nessas reuniões eles discutiam diversas questões teológicas, doutrinas, diferentes pontos de vista e quais escrituras (ainda recentes) teriam sido inspiradas ou não por Deus. Por fim, discutiam ainda se estas deveriam ser adicionadas às suas escrituras sagradas.

O principal dos mais antigos registros do que se compõe a Bíblia cristã é o Cânone de Muratori. Datado por volta do ano 170 d.C, já incluía em si uma discussão sobre quais livros eram confiáveis para compor a Bíblia. A discussão se concentrava principalmente em determinar o que seria acrescentado, ou seja, o estabelecimento do Novo Testamento, mantendo toda a literatura sagrada judaica, ou seja, a Tanakh que hoje chamamos de Velho Testamento.
Um pequeno parênteses dentro do assunto para esclarecer este termo hebraico:

Tanakh: Conjunto composto pela Torah, Neviim e Ketuvim somando assim o mais próximo de ser chamado uma Bíblia Judaica. A palavra Tanakh deriva do acrônimo das iniciais destas três partes.

Torah: Conhecido como 'A Lei', 'Instruções' ou também 'Pentateuco'. Constituída pelos 5 livros de Moisés (os cinco primeiros livros em nossas Bíblias).

Neviim: Conjunto de livros conhecido como "os Profetas"
Ketuvim: Conjunto de livros conhecido como "as Escrituras".
Trazendo para nossa realidade, vemos Jesus citando essa divisão neste texto:
"Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas" (Mateus 22:40)
Ou seja, toda a Torah e o Neviim.

De volta ao Cânone de Muratori, já em 170 d.C - muito antes da instituição do cristianismo como religião romana por Constantino no Concílio de Nicéia em 325 d.C - já trazia a Bíblia bem próxima do que temos hoje. Existem dúvidas levantadas por alguns livros constados que não foram precisamente descritos no cânone, mas especialistas concordam que são em sua maioria livros que pertencem ao Novo Testamento atual.

Mas qual a importância do Cânone de Muratori em comparação aos concílios futuros?
Sua importância se dá por este estar livre da influência política de Constantino, sendo fruto do zelo das primeiras gerações de cristãos, uma geração muito próxima destes escritos.

Mas como estes selecionaram o que entraria no Cânone?
É evidente que muito mais que o Novo Testamento foi escrito pelos cristãos da época, mas uma seleção era necessária para saber que escritos confiar para a fundamentação da fé cristã.
Certas exigências eram necessárias para a difundir um texto como sagrado. São elas:
1. O autor: Deveria ser apóstolo de Jesus ou ter proximidade inquestionável com um deles.
2. Unanimidade: O livro deveria ser aceito em sua totalidade por todos os cristãos que trabalhavam na propagação do evangelho, não podendo haver divergência entre grupos de fiéis quanto ao material.
3. Coerência: O texto deveria ser coerente entre si e com todo o restante do texto bíblico.
4. Conteúdo: Que acréscimo à vida cristã aquele livro trazia?
IMPORTANTE: O livro deveria preencher todos os quesitos concomitantemente. Qualquer falha em um só ponto o excluiria da discussão.

Todos estes pontos eram avaliados bem como a veracidade do material, se havia certeza na autoria comprovada, se era coerente com sua forma de escrever e o discurso apresentado.
Após cuidadosa análise, se todos os principais líderes concordassem, o livro seria incluído.

Existem mais textos dos apóstolos que não estão na Bíblia?
Sim! Isso é bem claro nesse fragmento da primeira carta aos coríntios, escrita por Paulo.
"Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais." (1 Coríntios 5:9 - NVI)

Este texto evidencia que a primeira carta aos coríntios é no mínimo a segunda delas.
Este é o único registro desta carta anterior a primeira, o que nos leva a crer que: ou a carta se perdeu antes da formação do cânone, ou não acharam o conteúdo interessante o bastante para compor os livros.
Sim! Muitos textos evidentemente sagrados podem ter ficado de fora. Sendo originário de Paulo, sem dúvida que seria um texto muito interessante, mas deve-se pontuar algumas coisas antes de seguir:
Que tamanho a Bíblia alcançaria se incluíssemos tudo que todos os apóstolos escreveram?
João encerra seu evangelho respondendo esta pergunta:
"Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem." João 21:25
Devemos ainda lembrar das dificuldades e custos em se copiar um texto, já citadas no post anterior.
Essa é uma característica bem marcante do Novo Testamento, é muito conciso! É fascinante como não há nada nele que parece sobrar. Tudo ali é especialmente imprescindível para o leitor cristão.

Há outros casos onde não se puderam comprovar a autoria de quem os escreveu, outros em que o escrito físico (pergaminho) que eles tinham acesso, não era confiável.
Numa missão tão delicada como essa, todos os cuidados possíveis eram tomados e a regra era: na dúvida, não entrava no cânone.

E por que a Bíblia da minha vó tem uns livros que a minha Bíblia não tem?
Sim, algumas bíblia vêm com livros adicionais conhecidos como deuterocanônicos ou apócrifos.
Antes de seguir vamos traduzir estes termos:

Apócrifo: Do latim: apócryphus. Significado: oculto

Deuterocanônico: Em uma tradução literal, "de um segundo cânone".
Presentes no Velho Testamento das Bíblias católicas, seriam os últimos livros escritos antes do Novo Testamento, porém estes livros sempre ressaltaram dúvidas quanto a sua sacralidade.
Apesar da comunidade judaica ter respeito por essas obras, nunca os incorporaram aos seus escritos sagrados, excluindo-os da Tanakh.

Estes livros sempre foram um assunto em pauta nos concílios já citados aqui. É importante lembrar que todos os principais historiadores da época não deram validade a estas escrituras em seu tempo. Apesar de ter coisas muito interessantes, seu conteúdo não condiz com o todo da Bíblia.
Há choques de doutrinas, imprecisões históricas, não sendo livros que acompanham a confiabilidade do restante da Bíblia. Além disso as dúvidas sobre suas autorias sempre pesaram contra estes, ao ponto de mesmo dentro da instituição Católica haver discussões sobre a validade destes.
Eles foram canonizados pouco a pouco em concílios tardios, tendo sido incorporados por completo à Bíblia Católica somente no Concílio de Trento em 1546, período bastante complicado para a fé.
Os protestantes não aceitaram essa canonização pelos mesmos motivos que os judeus não a aceitaram em seu tempo (antes de Cristo).

Quanto aos apócrifos pós Cristo, a problemática é a mesma: autoria questionável, trajetória dos escritos físicos não confiável, conteúdo duvidoso teologicamente.
Lembrando mais uma vez: Mesmo na instituição católica, existiam e ainda existem muitos que discordam da sacralidade destes textos.

Tá, mas e o evangelho de Maria Madalena? E o de Judas Iscariotes?
Ah, os polêmicos evangelhos secretos recém descobertos!
Seria injusto encerrar este post sem algumas considerações sobre eles.

O evangelho de Judas Iscariotes revelado recentemente pela National Geographic como "a descoberta que mudaria tudo que se conhece sobre religião"... na verdade foi descoberto em 1970.
Já na época despertou diversas dúvidas e hoje tem sua autoria atribuída aos Cainitas por toda parte de especialistas.
Para ser mais claro, com exceção da National Geographic, ninguém que tenha uma quantidade razoável de conhecimento no assunto pareceu dar muito crédito a este livro.
E aproveito pra deixar o aviso: Televisão e livros ficcionais não têm nenhuma autoridade acadêmica, não há o menor compromisso com a verdade. O interesse se resume em lucro e nada melhor que uma polêmica para alcançar seus interesses financeiros.

Já o evangelho de Maria Madalena que os canais de documentários também vivem redescobrindo com uma certa frequência, teve sua última transação registrada em 1896, quando passou a ser mais conhecido com o esforço do comprador destes manuscritos para torná-los mais populares.
Não há evidências ou aspectos que o mesmo tenha sido escrito no período em que Jesus vivia, o que me obriga a esclarecer um pouco sobre estes textos gnósticos.

Os Cainitas
O termo deriva de Caim, sendo uma seita gnóstica do século II que se detinha em contar a história bíblica pelo ponto de vista dos antagonistas, daí sua origem no nome de Caim.
Os textos são muito interessantes, todo o problema reside em ser tomado como documento histórico.
Estes escritos são unicamente um exercício de criatividade por um grupo de pessoas excêntricas posteriores aos tempos de Cristo.
O único registro histórico que há neles é o da criatividade ficcional do tempo dos autores, e não de um relato em si.

Mas eu vi no Discovery que...

Mais uma vez: Discovery Channel, History Channel, National Geographic e etc, empatam em seriedade com a nossa TV aberta, seus documentários a cerca de polêmicas são tão verdadeiros quanto o teste de fidelidade do João Kleber. Não há compromisso com a verdade em seu conteúdo veiculado.
Isso tem que ficar claro ou não faremos avanços em nossos estudos, o único interesse nestes documentários é que seja lucrativo, não importando a forma de atrair o público.
Obviamente que é interessante, claro! Mas não é material digno para basear suas crenças, o mesmo se aplica a Dan Brown, Michael Moore e todos estes caçadores de polêmicas que vendem mais livros que Big Mac's.
Lembrem-se, boa ciência exige pesquisa da parte do leitor e você não a encontrará em bancas de revistas!

Mas... Eles não mentiriam assim...
Acontece que mesmo com toda a facilidade de acesso à informação (basta 5 minutos de pesquisa para confirmar tudo o que está escrito aqui), a grande mídia sabe que é mais fácil assistir o próximo programa ou mesmo trocar de canal.
O problema é que a verdade não chama muita atenção.
Infelizmente a culpa desta situação vergonhosa em que a mídia se encontra é toda nossa. Não averiguamos as informações e é muito mais fácil engolir tudo que é dito.
A morte do questionamento nos colocou nessa situação.
E assim vão se criando diversos mitos modernos. Por falar em mitos, trataremos muitos destes (os melhores!) no próximo post!
A Bíblia: Podemos confiar nela?

A Bíblia: 1. Como foi escrita?

Como prometido no post anterior, no post de hoje abordaremos o livro mais polêmico e mais lido em toda a história da humanidade.
Sendo o primeiro livro reproduzido mecanicamente, através da imprensa de Johanes Gutenberg (estudaremos em uma outra oportunidade quais foram as causas e consequências deste acontecimento), traduzida para aproximadamente 2500 línguas e dialetos, a Bíblia Sagrada é o livro mais vendido do mundo, com mais de 6 bilhões de exemplares. No "Top 20" de livros mais vendidos de todos os tempos, a Bíblia supera sozinha o número de vendas de todos os outros 19 livros juntos.

Estes números me trouxeram a obrigação de dar início a esta série onde investigaremos minuciosamente a validade da Bíblia, e descobriremos a sua real importância histórica e religiosa em nossa época.
A série consiste de 6 posts que caberão a responder cada uma destas perguntas.

1. Como foi escrita?
3. Podemos confiar nela?
4. Como ela chegou até nós?
5. Por que acreditar?
6. Como ela deve ser lida?

Seguindo a ordem, este texto tratará da primeira pergunta.

Como a Bíblia foi escrita?

A palavra Bíblia deriva do grego, significando "conjunto de livros" (plural de biblion).
Tratando-se de vários livros, foi produzida por diversos autores, aproximadamente quarenta, sendo amplamente aceito que a Bíblia foi escrita entre 1445 a.C à 90 d.C (com um hiato de não produtividade entre 450 a.C à 45 d.C).
Escrita em três línguas: hebraico, grego e aramaico, é imprescindível levar em conta que estas línguas hoje se distanciam muitíssimo de como era à época em que foram feito seus registros.
Nos deparamos aqui com a primeira dificuldade: Imagine um livro escrito em um período de mais de 1500 anos, por cerca de quarenta autores diferentes, em regiões, línguas, culturas e estilos de vida diferentes e todos tratando do mesmo assunto, mas não um assunto qualquer, um assunto que transcende o físico, beirando o incompreensível para nossa mente limitada e sem qualquer tipo de asseguramento empírico.
Nesta série buscaremos respostas para diminuir todas as barreiras que essas condições nos colocam quanto à confiança e interpretação do texto bíblico.

Vamos a primeira verdade sobre o processo da formação da Bíblia.


A BÍBLIA FOI ESCRITA POR HOMENS



E com isso já posso me enxergar sofrendo um apedrejamento virtual pelos crentes chatos de plantão.

Ao contrário da imaginação popular, a Bíblia não foi escrita pelo dedo de Deus - com exceção do decálogo (os dez mandamentos) - nem caiu do céu nos braços dos profetas de Israel.
A Bíblia foi escrita por mãos humanas, mentes humanas, utilizando-se da linguagem humana, o que traz enormes complicações. Precisamos levar em conta alguns fatores para alcançar entendimento nela:


Individualidade do autor
Sim, muito da Bíblia foi escrito de um modo bem humano, olhe o início do evangelho de Lucas:
"Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós,
conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo (...)" Lucas 1:1-3 (Nova Versão Internacional)
Para escrever seu evangelho, Lucas saiu em pesquisa. Lucas não era um dos doze apóstolos, o que fortalece ainda mais a necessidade do trabalho minucioso ao investigar com os apóstolos e as testemunhas que presenciaram boa parte do que ele relata.
E essa é a parte interessante da Bíblia, quando Mateus, Lucas e Marcos descrevem os mesmos fatos de forma diferentes, fica evidente que a inspiração divina para a produção do texto recai igualmente sobre os três, mas cada um escreveu conforme o seu jeito de se expressar, conforme o que viu, o que ficou marcado em sua mente. Sim, um processo humano guiado por Deus.

Ora, Lucas era um médico, um homem de ciência, se utilizou de toda a precisão empírica de seu tempo para alcançar este relato, que provavelmente tenha sido produzido para o julgamento de Paulo, um texto que precisava de respaldo para ser utilizado no meio jurídico.
Já Marcos, demonstra ser uma pessoa de ação, seu livro mal começa e já acontecem inúmeros milagres.
Mateus por sua vez narra a história daquele que transformou a sua vida, coloca Jesus como o centro de sua salvação.
E João, o discípulo amado, não esconde nem por um segundo quanto de seu sentimento e intimidade com Jesus compõe a forma como ele escreve seu evangelho, um evangelho intimista.

Fico pensando em como seria o meu evangelho, provavelmente seria uma Bíblia a parte com uma riqueza de pequenos detalhes irritante que faria qualquer um cair em tédio. Os autores revelavam muito do que eles eram e como pensavam ao escrever.

Mas o mais interessante é como todos, sem exceção, sendo tão diferentes conseguem manter uma linha tão firme e coerente do Gênesis ao Apocalipse demonstrando claramente o zelo de Deus para com o seu texto.

A Bíblia foi escrita com as técnicas e suportes do seu tempo

Escrever não era uma tarefa fácil, muito menos barata.
No texto bíblico há relatos de diversos suportes utilizados a época pelos profetas. Suportes são os materiais utilizados para o registro escrito. Em nossa era o exemplo mais comum é o papel (já sendo em sua maior parte do tempo substituído pela tela digital).
São encontrados no texto bíblico menções a estes suportes: tablete de argila, pedra, metal, cera, madeira, óstracos, papiro, pergaminho, linho e palimpsesto.
Dentre estes, os mais utilizados foram o papiro e o pergaminho.
Escrever era algo realmente complexo, tarefa de pessoas seletas, pensado mais no registro e sua importância futura do que no real impacto massivo imediato. Aliás um impacto massivo era algo inimaginável por qualquer outra via que não fosse pela oralidade.
A escrita era diretamente influenciada  e limitada pelo suporte utilizado, um exemplo disso é a escrita hebraica, onde se lê da direita para a esquerda, assim como todas as línguas antigas com exceção do grego, o que remete ao fato da maior facilidade e posição mais natural em esculpir as letras utilizando o martelo com a mão direita (em geral, mais forte) e o cinzel com a esquerda.
Os suportes eram limitados, o que nos faz muitas vezes ler histórias sem muitos detalhes devido as dificuldades em registrá-los, muitos destes detalhes seriam facilmente compreendidos por alguém familiarizado pelo estilo de vida em questão, bem como as peculiaridades culturais, mas isso também tem seu lado bom. A necessidade da síntese torna a Bíblia um livro legível do ponto de vista quantitativo.
Se escrita hoje, com todas as facilidades de registro, a Bíblia teria um tamanho inimaginável! Imagine um ano de todos os jornais da sua cidade, agora multiplique isso por cerca de 1500 anos, some a isso fotos, vídeos e gravações de áudio, sem falar nos inúmeros registros amadores que se pode fazer com qualquer celular atual.



A Bíblia, a priori, foi escrita para seu tempo


Essa é talvez a parte mais difícil de se aceitar pelos leigos. Muitos não compreendem o quanto esse livro sofreu até chegar em nossas mãos, na nossa língua, e isso de uma forma que seja entendida.
Vamos dar um pequeno passo ao passado, esta placa logo abaixo foi fixada há pouco mais de cem anos.
Ora, é claramente legível, mas observe que apesar das poucas palavras, já sofreria algumas atualizações para estar dentro das normas de nossa língua hoje.


Agora vamos a um passo maior, quinhentos anos atrás, o primeiro registro de literatura brasileira.


Sim, isso é português, e mesmo que entendêssemos a letra de Pero Vaz de Caminha em sua primeira carta sobre o Brasil, teríamos uma certa dificuldade com a língua, que se misturava um tanto com o espanhol, tinha grafias completamente diferentes. E estamos falando de 1500.

A imagem abaixo é um fragmento do Codex Aleppo (uma das mais confiáveis cópias parciais do texto bíblico), sua datação marca 930 d.C.


O Codex Aleppo faz parte dos escritos massoréticos e é impossível falar da construção da Bíblia como ela chegou a nós sem nos determos por um tempo neste assunto. Trabalharei estes escritos no post que responderá a terceira pergunta desta série.
Já está bem claro as dificuldades que temos hoje em tão somente ler um texto escrito há mais de dois mil anos atrás. Compreendê-lo pode ser uma missão igualmente difícil.
Muito do texto bíblico perde seu sentido na nossa interpretação quando não entendemos o mínimo da cultura e realidade daquele povo. Um pequeno exemplo disso, se você concordou quando disse que Lucas sendo médico se utilizou de empirismo para provar a veracidade dos fatos que pesquisou, você já caiu num erro de interpretá-lo como um médico nos dias de hoje. Falei de empirismo diante da seriedade em que não sendo ele um trabalhado braçal, pescador, marceneiro, mas um estudioso da ciência humana, tinha um compromisso com os fatos, e de fato é o único autor que começa um livro dizendo que investigou pessoalmente os relatos com testemunhas oculares. De fato ele era um homem de ciência da época, mas a medicina antiga do oriente médio passava longe de ser uma ciência exata (não dentro dos moldes de exatidão atuais), mais parecendo um conjunto de superstições.
Deve-se ressaltar os grandes impasses idiomáticos, ou seja, frases que tinham sentido para as pessoas na época, mas que não resulta em nenhum sentido próximo devido a nossa diferença cultural (seja quanto a localização geográfica ou o distanciamento cronológico).
Levar o texto bíblico ao pé da letra pode ser uma verdadeira catástrofe quanto a interpretação.
A própria expressão "ao pé da letra", em uma outra cultura não faria o menor sentido e seu sentido foge às palavras.

Com isso, temos que lembrar que a Bíblia foi escrita pela cultura da época, linguagem da época, se utilizando de exemplos e da realidade da época, mas que nunca se restringiu ao seu tempo, o que é evidente quanto ao impacto que ela tem hoje, é um livro atual, sem dúvida. Seu conteúdo é mais que aplicável aos nossos dias, mas sua escrita não.
Essa é uma dificuldade que deve ser superada individualmente por cada pessoa que se interesse pelo texto bíblico, indo atrás dos significados das expressões idiomáticas, buscando entender melhor a cultura e realidade do povo a quem o texto era direcionado na época. Esse conhecimento pode ser buscado em dicionários bíblicos, materiais acadêmicos teológicos e incessante pesquisa.

Hoje, 3500 anos depois de suas primeiras palavras serem escritas, é o livro mais presente no mundo.
Sua má interpretação aliada a proibição de estudá-la causou inúmeras mortes, guerras, opressão e todo tipo de destruição. O conhecimento desta poderia ter salvo todo uma era.
Hoje qualquer pessoa pode tê-la em sua casa, a ler com responsabilidade é imprescindível para que a sociedade não recaia em plena ignorância religiosa, estando a mercês de charlatões, manipuladores e construtores de opiniões falsas.
Infelizmente o que vejo hoje é uma segunda idade média, novamente ninguém questiona ou não se embasa para questionar. Aceitamos ou negamos qualquer coisa nos dita sem averiguar.

Antes não se tinha acesso ao conhecimento para questionar o que era ensinado.
Hoje, o fácil acesso exagerado foi ofuscado pelo comodismo e mitos religiosos, aliados ao achismo e desconhecimento total a respeito do assunto e tudo que o permeia em suas entranhas. Continuamos imersos na ignorância.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." João 8:32

Brincando de Religião

Isso vai ser divertido...

Olá!
Este blog foi criado com o intuito de simplificar um dos assuntos que mais geram conflitos desde o início da história do mundo.
A ideia é construirmos conhecimento suficiente para nos protegermos e nos blindarmos contra quem inescrupulosamente faria uso de qualquer coisa em benefício próprio.
Há muitos que se entendem sobre-humanamente inteligentes ao defender a ideia de que "A Religião é o câncer do mundo moderno."
Penso diferente, me parece mais lógico que "a ignorância da Religião é o câncer do mundo moderno."
Sim... É inegável que em nome da religião dominamos e fomos dominados. Em nome da religião fizemos (e ainda fazemos) guerras. Em nome da religião enriquecemos e extorquimos.
Mas não...
Não foi pela religião, mas por sermos ignorantes quanto a ela. Ao estudar este assunto vejo quão claramente o conhecimento da Bíblia poderia nos proteger de todos os males "em nome de deus" registrados na história.
Segundo a filosofia clássica, tememos o que não conhecemos. O que não conhecemos nos domina.
Em conhecê-la seremos livres.
Não nos deixemos ser dominados pela religião, mas sim alcançarmos total domínio quanto a ela e as minuciosas questões que ela nos levanta.
A ideia é rebater a ditadura da ignorância em que entramos, período que chamo de Nova Idade Média.
É de conhecimento de todos que a Idade Média foi a maior amostra de quanto a religião pode ser perigosa, e me refiro aqui à religião regida pela falta de conhecimento.
Já a idade moderna nos mostra o quanto o ceticismo religioso sem fundamentações sólidas nos leva a ultrapassar todos os limites no que tange ao humanismo. Nos tornamos bichos instintivos capazes de qualquer coisa na luta pela sobrevivência e supremacia.
Saímos de um extremo e fomos à outro. Continuamos ignorantes, continuamos dominados.
A religião está para a idade média assim como a ciência está para a contemporaneidade.
Acreditamos em qualquer coisa que se defende como científico, esquecendo todos os interesses por trás de uma ideologia. Toda pesquisa exige dinheiro, toda pesquisa é financiada e há interesses específicos ao se iniciar uma.
De forma alguma combaterei a ciência! Combato o que a mídia faz com o dito científico.
"A ciência" já se tornou uma entidade, um ser que prova coisas unanimemente como se não houvesse quem discordasse de qualquer coisa que seja "cientificamente comprovada". Porém a mesma muda de ideia constantemente, atendendo a quem detêm o poder financeiro.
Estamos na mesma ditadura, a ditadura do poder. Mais uma vez nas mãos dos poderosos por sermos ignorantes. Trabalharemos este tema em específico em breve, passeando pela construção do mundo pós-moderno e o então popularizado ceticismo que alcançamos regado à falta de conhecimento.

Vamos debater a Bíblia, o livro mais perigoso já escrito, mas quando buscado ser entendido com afinco transforma-se em liberdade!
Devemos compreender que milênios se passaram desde suas primeiras palavras, escrita em línguas que exigem muito dos tradutores, com traduções que muitas vezes seguem tendências de pensamento de um grupo específico, tratando-se de uma cultura totalmente distinta, com expressões populares que desconhecemos (expressões idiomáticas). Todas estas coisas fizeram da Bíblia um livro que deve ser lido cuidadosamente se valendo de todo o conhecimento histórico, cultural e linguístico que poderemos adquirir nesta caminhada.
Vamos contornar tudo isto com pesquisa séria destituída de pontos de vista engessados na pura e fantástica busca pela verdade.

No próximo post elaboraremos uma questão polêmica e crucial para o início de todos os nossos estudos.
Seria a Bíblia verdadeira?
Como acreditar num livro tão antigo usado por mais de mil anos como instrumento de opressão que atendia uma classe minoritária?
Teria sido ele totalmente modificado para atender os interesses deste poder?
Peço que livrem-se de preconceitos e nos juntemos nesta busca em pesquisa séria tendo como único objetivo encontrar a verdade.
(Aos que têm perguntas específicas, sintam-se à vontade para fazê-las via ask.fm tendo seu anonimato mantido: ask.fm/todoentendimento).